... Qualquer semelhança com uma coincidência é a mera realidade

O curioso caso da aposentadoria

Nunca se perguntou por que os velhos não fazem mais nada depois que se aposentam? A resposta é muito simples: porque são velhos. Homens e mulheres que até ontem estavam contribuindo para a sociedade, agora estão de pijamas, tomando sopa com torradas no jantar e suco de laranja com pílulas. O vigor e a força da juventude já foram embora, e sobraram as costas arqueadas e as orelhas compridas.

Claro que generalizo a questão. Há muitos velhos que vivem como jovens e jovens que se arrastam como velhos. Mas meu ponto é outro.

Quando estamos no auge da juventude, cheios de energia, vontade e curiosidade, temos que passar oito horas por dia, cinco dias por semana, sentados dentro de um escritório frio e mal iluminado. Ficamos parados sedentariamente na frente de um computador, mexendo apenas as mãos freneticamente enquanto digitamos e-mails para três ou quatro destinatários, com cópia para o chefe, olhando nas pausas pela janela para o dia ensolarado e convidativo do lado de fora. Isso quando não trabalhamos no CPD do subsolo.

Quando chega o final de semana, temos só dois dias para “aproveitar a vida”. Como não podemos fazer uma viagem realmente interessante e conhecer outras culturas em meros dois dias, gastamos esse tempo lendo algum livro que ficou fechado na cabeceira da cama durante a semana ou tomando banho de piscina no clube, se estiver fazendo sol. Quando ocorre um feriadão, aproveitamos para viajar para a fazenda da tia no interior.

E o desejo de conhecer o mundo? Ler todos os livros da lista? Tirar as fotos mais interessantes? Assistir aos filmes mais instigantes? Viajar, comer, viver? Guardamos parte disso para o final de semana e reservamos as férias, um mês em doze, para realizarmos esses desejos. E seguimos nesse ritmo frenético até que, aos cinquenta e poucos ou sessenta anos, nos aposentamos. Agora não precisamos mais ocupar oito horas do dia no trabalho e temos todo o tempo do mundo – ou que nos resta em nossas vidas – para fazermos tudo o que não tivemos tempo de fazer nos anos de trabalho anteriores. Mas já estamos tão cansados, tão enfadados, tão pouco curiosos e com a saúde tão debilitada que é melhor pôr as meias e assistir à TV. Deixa essa coisa de viver a vida para os jovens.

Por isso proponho uma outra aposentadoria. Uma aposentadoria à la Benjamin Button, ao contrário e aos poucos. Quando entrássemos no mercado de trabalho, trabalharíamos apenas um dia por semana. Teríamos seis dias para viajar, comer, ler e viver. Fora as férias. À medida que fôssemos envelhecendo, iríamos aumentando o ritmo de trabalho: dois dias por semana, depois três, quatro, até que estivéssemos trabalhando cinco dias por semana, perto dos sessenta anos. Então teríamos a condição física ideal para ficarmos sentados a maior parte da nossa vida mexendo em um teclado. E teríamos aproveitado a vida.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Creative Commons License
This work is licensed under a Creative Commons Attribution-NonCommercial-NoDerivs 3.0 Unported License