Reuniões são oportunidades para aparecer e desaparecer. Quem está no
comando adora uma reunião. Quando reúne toda a equipe, olhando
reverentemente para ele e aguardando o próximo pronunciamento que mudará
suas vidas de uma maneira que elas não podem sequer imaginar, o
chefe-guru encontra o sentido de sua existência. Ali estão pessoas que
precisam de um guia, que não sabem como cozinhar um macarrão sem ler a
receita atrás do pacote, que sem alguém para lhes dizer o caminho
estarão irremediavelmente perdidas no mundo. Naquele dia, o chefe-guru
está epifânico.
Do lado dos que receberam o convite da
reunião nas suas caixas do Outlook, a felicidade é completa. Uma tarde
inteira sem redigir relatórios que alguns vão imprimir e ninguém vai
ler, sem telefone tocando com urgências desimportantes, sem navegar nos
mesmos sites de sempre. Uma mudança de rotina que não traz mais
trabalho. Aliás, que não traz trabalho nenhum. Basta ficarem sentados
nas confortáveis cadeiras da sala de reunião, que em nada lembram
aqueles assentos tortos e descascados de suas baias, olhando de vez em
quando para o chefe, mexendo a cabeça e fingindo interesse, enquanto
navegam nos mesmos sites de sempre em seus smartphones conectados na
rede da empresa. Que, por sinal, só funciona nas salas de reunião. Após
toda uma tarde nesse evento, quando a reunião é encerrada às 17:30h só
resta tempo para voltar à baia e dar uma olhada nos últimos e-mails no
Hotmail, desligar o computador e enfrentar o engarrafamento nosso de
todo dia. Menos um dia de trabalho terminado.
E o
assunto da reunião? Isso é o que menos importa. No convite do Outlook,
havia menção a algo como “compartilhar informações sobre os projetos”.
Na dinâmica proposta, cada responsável por um projeto, um após o outro,
deve fazer um reporte sobre seu trabalho, o que foi feito e quais as
dificuldades que está enfrentando. Enquanto os demais navegam em seus
smartphones. De vez em quando, uma frase chama a atenção de alguém na
sala, que inicia um debate acalorado com o palestrante da vez sobre uma
ferramenta que está sendo usada nos dois projetos e que não está
funcionando. Ou sobre uma falha no processo de gestão de projetos
adotado pela empresa e que está atrapalhando os dois. O chefe intervém,
registra o assunto em algum caderno que depois não vai mais olhar e
chama o próximo da fila para dar seu relato.
Apesar de
aparentar ser um momento produtivo, em que problemas comuns a mais de um
projeto podem ser identificados pelo compartilhamento – ou
“socialização” – de informações que de outra forma jamais aconteceria,
esse tipo de reunião é uma total perda de tempo. Sem uma pauta definida e
sem uma lista de ações estabelecida ao final, a reunião serve apenas
para a equipe fazer o trabalho de gestão que o chefe não fez, que é
acompanhar os projetos em andamento, identificar os gargalos existentes e
tomar as ações para retirar as pedras do caminho. Inclusive aquelas
pedras que estão no caminho de mais de um projeto. Ao usar a equipe para
fazer seu trabalho de gestão, o chefe tira dessa equipe uma tarde
inteira em que poderia estar fazendo o trabalho dela, que é executar o
cronograma do projeto.
Uma outra forma, eficaz, de
chegar ao mesmo resultado são reuniões um-a-um entre o chefe e o
responsável por cada projeto. Ao final de uma rodada dessas reuniões com
todos os responsáveis por projetos em sua equipe, o chefe eficaz terá
uma visão de tudo o que está acontecendo em sua área e quais problemas e
gargalos estão atrapalhando o alcance dos resultados. Inclusive aqueles
comuns a mais de um projeto e que precisam de ações coordenadas para
resolvê-los. De posse desse panorama, esse tipo de chefe convocará as
pessoas específicas e que tenham relação direta com cada assunto para
endereçar as ações de correção, ou escalará o problema para sua própria
chefia se uma ação mais estratégica ou de maior empowerment for
necessária.
Nessa abordagem com foco definido, o chefe
gastará toda uma tarde coletando as informações. Mas cada responsável
por projeto usará apenas alguns minutos, dez ou quinze, para fazer o
reporte diretamente a quem interessa, o chefe, e poderá voltar à
execução de seu cronograma. Mas, ao contrário da reunião plenária, a
abordagem um-a-um não dará a oportunidade do chefe aparecer e da equipe
desaparecer em uma tarde chata de véspera de feriado.
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