... Qualquer semelhança com uma coincidência é a mera realidade

Ladyhawke e o feitiço de Áquila

Todo chefe tem um chefe. Essa regra, impiedosa, é verdadeira qualquer que seja a hierarquia ou organização. Todo mundo tem alguém a quem deve obediência, dar respostas sobre assuntos que não sabe, pedir brandamente a liberação para um curso ou viagem de trabalho. Todo mundo tem alguém que lhe cobra o cumprimento do horário.

Por isso a ausência de um chefe é libertadora. Sentimo-nos livres, senhores de nós mesmos, líderes da nossa existência naquelas oito horas que somos obrigados a passar no escritório. Ou sete, quando o chefe não está.

Qualquer que seja o nível hierárquico, a sensação de liberdade é a mesma. Mas há uma pedra nesse caminho para o paraíso: o substituto. Sim, aquela pessoa a quem não damos muita importância no dia a dia, a quem vemos como mais um colega de trabalho vítima das piadinhas de que todos no escritório são alvo, que não raro senta na baia do lado, longe da sala exclusiva dos chefes. Nesse dia, quando o chefe de verdade não está, o substituto assume o papel com uma determinação messiânica, como se a responsabilidade pelo sucesso de toda a empresa estivesse em seus ombros. Afinal, a ele foi confiada a tarefa de conduzir o barco enquanto o capitão estiver dormindo. E se houver um iceberg logo à frente? E se o tempo mudar, e uma tempestade sacudir o navio justamente quando ele estiver no leme? O substituto tem que estar sempre alerta, sempre atento ao que está acontecendo. Ele tem que se mostrar à altura da missão temporária que lhe foi confiada.

Há também a questão de manter a moral na equipe. O substituto, apesar de parecer gente como a gente, é um cara diferente. Ele tem um quê, tem alguma coisa que o resto da equipe não tem. Ele ainda não é chefe, mas está no caminho. Aquela incumbência temporária não é nada mais nada menos do que um teste, uma prova a que ele está sendo submetido para mostrar que, um dia, quando o chefe de verdade se aposentar ou virar chefe do chefe, ele pode assumir o cargo de maneira definitiva. E sair daquela baia e daquele ramal compartilhados e cumprir seu destino manifesto: sentar na sua própria mesa, na sua própria sala.

Por isso, na maior parte das vezes o substituto consegue ser mais caxias do que o chefe quando está no comando. Afinal, ele precisa passar na prova com nota dez. É o primeiro a chegar, o último a sair e vive perguntando se o colega na baia do lado precisa de alguma ajuda. Ciente da responsabilidade que tem nas mãos, para a qual se preparou a vida inteira, o substituto quer mostrar que merece deixar a transitoriedade e alcançar a  permanência. Jogando para a torcida e para o técnico, tenta mostrar que não é à toa que chegou onde chegou, ele merece aquilo, na verdade merece ainda mais. É só uma questão de tempo e paciência até o chefe se aposentar.

Mas temos também o substituto Ladyhawke. Tal como no filme, você nunca vê os dois – ele e aquele que ele substitui – ao mesmo tempo. Mantendo uma espécie de relação simbiótica com o chefe, na verdade são duas pessoas fazendo o trabalho de uma. Há uma reunião importante que não se pode faltar? Aquele que estiver no plantão, comparece. Precisa levar o cachorro no pet shop? Não tem problema, o outro assume a chefia. E não estamos falando aqui de férias, quando faz todo o sentido que um assuma o papel do outro que está na praia. É mais uma questão de rotina diária de trabalho: para que duas pessoas presentes na empresa, se uma pode dar conta do recado? Combinando sempre seus horários, quando um sai – muitas vezes no meio da tarde – o outro chega, de modo que há sempre alguém no leme. O navio nunca fica à deriva, há sempre um comandante para puxar abruptamente o barco à bombordo e escapar do iceberg iminente.

É claro que o substituto Ladyhawke tem seus problemas. E por “seus problemas”, eu quero dizer seus mesmo, caro leitor que tem um trabalho para fazer, não do chefe ou do substituto. Posicionou o chefe sobre uma questão em que precisa de ajuda? Na reunião de diretoria em que o assunto vai ser debatido, é o substituto quem vai estar lá, sem saber do que se trata. Ou, se tiver sorte e tempo antes da reunião, você vai poder repassar pacientemente todo o assunto novamente ao substituto, para que ele possa tomar uma decisão que invariavelmente vai ser diferente daquela que você já tinha meio que acertado com o chefe. Ou o inverso: no plantão daquele dia o substituto é quem estava no posto, então após contar a ele todo o seu problema, ele vai dizer “Vamos aproveitar a reunião de diretoria do dia 23 às 09h para tratar disso”, antes de lembrar que ele não vai estar na empresa no dia 23 pela manhã pois marcou horário na concessionária para hidratar o banco de couro do carro. Mas não tem problema, o chefe vai estar no escritório no dia da reunião, é só você não se atrasar de jeito nenhum naquele dia e estar lá às 08h em ponto para repassar tudo novamente a ele. Que vai tomar uma decisão completamente arbitrária, pois não teve tempo de entender a complexidade de tudo o que você falou – mas isso já é assunto para outro post.

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