Um grupo de trabalho tem pessoas com as mais variadas diferenças: de opção sexual – seja de forma declarada ou não –, de temperamento, de cor de pele, de idade. É com relação a esse último item que eu quero me deter neste post.
Dependendo de onde esteja empregada, uma pessoa pode conviver com desde estagiários impúberes – ou melhor ainda, estagiárias impúberes – a octogenários que esqueceram de recolher o INSS e agora têm que continuar no batente para pagar o parto da neta impúbere até ontem, que resolveu estagiar e engravidou do office-boy.
De toda maneira, considerando a distribuição normal de ocorrência de relações sexuais ao longo do ano e desprezando os efeitos sazonais dos nove meses após carnaval e réveillon, todos os meses temos alguém no escritório fazendo aniversário. E junto temos ela, a famigerada festa de aniversariantes do mês.
Geralmente uma pessoa da equipe é escolhida para o cargo de responsável pela festa de aniversariantes, ou RPFA. Sem gratificação financeira ou de qualquer espécie, o ocupante desse cargo tem a ingrata tarefa de todo mês contratar um pequeno bufê, arrumar a mesa onde vão ser servidos os comes e bebes – se tiver sorte, com a ajuda da secretária, que sempre fica mal humorada nesse dia –, controlar a chegada dos quitutes, manter os salgadinhos quentes e os refrigerantes gelados até a hora da festa e decorar a sala de reuniões transformada em salão de festa com balõezinhos coloridos. Mas nada disso se compara à mais infame das tarefas: recolher o dinheiro para bancar o convescote.
RPFA inteligentes terceirizam a passagem do chapéu à estagiária grávida ou ao office-boy. Mas esses são poucos. Os menos inteligentes, ou mais ainda, os neófitos no cargo, animados com a possibilidade de promoverem uma coisa muito melhor do que aquelas festas sem graça e com comida regulada que aconteceram antes de sua posse, fazem questão de executar tudo eles mesmos, para garantir que nada saia errado.
Esse RPFA então passa de baia em baia, mesa em mesa, recolhendo aquele dinheiro que não paga nem um almoço no bandejão do prédio ao lado. Mas não obstante a miudeza do valor, a miudeza do caráter sempre revela alguns que acham que está caro, que esse dinheiro, mesmo pouco mas que multiplicado por todos do escritório é muito, daria para comprar risoles e suco de pêssego ao invés de coxinha e guaraná. Isso quando não pagam e depois descobrem que têm reunião no horário programado para a festa e pedem o dinheiro de volta, já que não vão poder mais participar. Dane-se se o RPFA já fez a encomenda do bufê considerando mais aquela boca pra alimentar.
Ao final, cantados os devidos parabéns e cumprimentados os aniversariantes que metade dos presentes não sabe nem o nome, voltam todos às suas baias para trabalhar. E nos dias seguintes, os comentários sobre a festa variam de estava ótima a foi comida demais, pra que esse exagero? Os que gostam de chocolate reclamando que só tem bolo de morango, os que estão de regime falando que nunca pedem coca light. Mas ninguém fala nada na frente do RPFA – a não ser aquele que disse que a festa estava ótima –, pois não querem correr o risco dele desistir da tarefa e serem eles os próximos candidatos a ocupar o cargo.
Até que um dia o RPFA desiste. Chega, já deu sua contribuição. Não aguenta mais a cara feia da secretária na hora de arrumar a mesa nem o muxoxo que ouve no recolhimento das contribuições. Está na hora de passar o bastão. Gente nova, sangue novo. Então um novo RPFA toma posse – e nunca se sabe muito bem como foi o processo de seleção –, animado com a oportunidade de dali em diante fazer festas muito melhores do que aquelas sem graça e com comida regulada do RPFA anterior.
Nenhum comentário:
Postar um comentário